terça-feira


é permutável todas as sensações que os outros têm... no outro dia sentei-me à beira de um abismo metafórico... todas as pessoas ali presentes estavam como que à espera da morte, todas carregava um peso sucinto da vida que havia passado... e eu, que nunca de maneira alguma me preparei para a minha própria morte, estava ali de empréstimo, e sentei-me apreciando, sentei-me divagando, sentei-me apenas... ao lado de um triste homem, que não falava, não mexia, só olhava. e eu olhei-o com a mesma intensidade... olhei-o até ao fim... olhei-o sempre que ele me olhava e quando ele não olhava... e tal como ele não falei... e quando passou o tempo suficiente ele disse -me que ali estava por amor... porque procurava a sua mulher que há muito estava preparada para morrer... que já não o amara com vivacidade. eu ouvi-o, e no fim conclui que o único que estava pronto para morrer era ele, que se menosprezara por ela e enfraqueceu por ele próprio. e ele foi se embora dizendo que lhe tinha devolvido a vida, assim do nada, e ainda acrescentou que louco seria aquele que não me amasse por inteiro, porque eu fui a transparência mais bela que ele alguma vez vira. ele não me disse o nome dele mas uma senhora veio ter comigo antes de eu me ir embora e me perguntou se o conhecia, e eu depressa disse que não... "era o senhor Abel, que amara como nunca ninguém vira, e que ficou louco quando a mulher lhe morreu". Ali naquele jardim de loucos, conheci o melhor...


encontrei por acaso este texto nos meus rascunhos, não me lembro bem de o ter escrito, nem o porquê, não me lembro sequer da ideia por detrás das palavras, data de Novembro, dia 3, ou seja, dois meses certos... e achei-o bonito até.

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