sábado

Há amores que perduram...

Querido Francisco, hoje tinha-te de escrever.
Lembras-te da nossa infância? De tudo que havia de inteligente nas tuas palavras? Lembras-te daquele dia em que fomos para tua casa fazer um trabalho e a tua mãe me tratou como filha dela? O teu irmão como irmã dele? E o teu pai, que não teve tempo de me tratar porque chegou tarde, disse que merecíamos descansar, e mostrou-me a tua mesa de matraquilhos, que me fascinou tanto quanto tu. Depois lembro-me da tua pequena sala de jantar onde assistimos ao concerto do Robbie, e do teu quarto, e foi ai que, sabendo ou não, gostei de ti com muita força (amar eram excentricamente forte para crianças da nossa idade, na altura) porque me disseste que escrevias cartas. Foi um amor tão pequenino quanto eu mas tão forte como o som da felicidade. Não sei se te lembras, mas eu lembro. Só que não venho aqui falar disso, venho para falar contigo, como melhor amigo que nunca foste nem que eu desejei seres, agora atribuo-te esse cargo porque este blog é o meu Francisco, és tu, onde conto as aventuras e desventuras, e ouve sem nada dizer, tal como tu, mas é isso que eu preciso, silencio.
De vez em quando esta minha desgraçada alma (e não é desgraçado num termo lastimoso, mas num termo de brincadeira) brinca, sem autorização, com o fogo, e doí-me depois. Estava eu tão bem, deitada no sofá sem conversa de ocasião ou politiquices da lista de coisas-a-fazer, quando esta decidiu dar de si e aborrecer-se, até ai lidei bem eu com ela, zombei-a "aborrece-te para ai, vá, já me habituei", e ela pareceu desistir de se aborrecer e aproveitar o descanso, enquanto eu passava de um programa para o outro não dando vantagem aos intervalos. E foi de um momento para o outro que a confusão apareceu, com tanto barulho que depois me senti surda, berravam-me aos ouvidas, culpavam-me, chegaram a detestar-me, refilavam e eu apagava os sentidos dos programas de televisão, adormecia todo o meu corpo e deixei o miocárdio a bater (e digo miocárdio porque me manteve viva, se fosse o coração falava-te de sentimentos). E quando tudo parou disse-me a desgraçada, da alma sim, num tom doce: "isto my lady foi a tristeza a invadir-te, aguenta-te". Nem foi o que disse, foi como o disse, aquela doçura magoou-me.
Francisco, a tristeza faz tanto barulho, mas tanto, que tu te sentes capaz de morrer ali. Não era o momento certo para ela aparecer, juro-te que não, porque eu trazia nas mãos, e no coração (também na cabeça) muita felicidade, não só minha como de outros, e não a podia sujar. Achei mesmo que ia ficar aqui instalada. Foi se embora passado um bocado e e sentei-me a conversar com a desgraçada da alma, perguntar-lhe o porquê disto tudo, essas burocracias intimas. E no momento errado deu-me o silêncio apaziguador, estúpida. Só quando eu desisti é que ela me veio dizer, rapidamente para eu não ter tempo de pedir explicações detalhadas, que aquela tristeza que ela me trouxe foi uma mistura de saudade e de força, que foi para me manter em forma, para continuar a saber lidar com isso se por acaso aparecerem de novo com um exercito. E quando olhei para dentro tinha um bilhete deixado no coração: "é amor, não te esqueças nunca disso, é amor que deves tratar como deve ser, e são as saudades a sua memória mais dolorosa. Ama-as, porque são amor."
E é assim Francisco que me apercebo que não posso amar sem saudade e que não posso ter saudades sem ter amor.


Um beijinho,com mais 10 anos desde a ultima vez, Maria

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