quinta-feira

a carta aos meus pais

Vou fazer uma carta para cada, nunca enviaria o mesmo para os dois.

14 de Abril
Mummy
Sabes, nunca pensei escrever-te à séria como menina grande, sempre achei revolta nas palavras sinceras que te queria dizer. Mas acho que cresci, ou pelo menos acordei, percebi que a revolta se chamava estupidez. Mãe, parte-me o coração ver-te chorar, e é só por isso que viro as costas, primeiro abraço-te mas não para, então fujo. Desculpa, mas doí. Gosto de te ver sorrir, é reconfortante, adoro as gargalhadas que de vez em quando dás. E acho uma tremenda piada quando falas dos sinais do código, se bem que irrita.
Tenho muito a agradecer-te. Não estiveste sempre na minha vida, nem fizeste sempre o certo, não foste perfeita nem nunca o tentaste ser. No entanto foste mãe solteira, foste a minha mãe solteira, o meu pai também. Educaste, bateste e berraste, enervaste-te e cometeste erros perante a minha educação. Mas agora com os meus 16 anos vejo na menina mulher em que me tornaste. Um tanto ou quanto fria, um tanto ou quanto pé atrás, desconfiada, e nos piores momentos ingénua. Nunca me vestiste com cor-de-rosa, nem me ensinaste a dançar ou incentivaste aos namoricos. Nunca me ensinaste a dar a mão, ou a confiar num homem. Nunca me disseste para confiar nas pessoas, bem pelo contrário, ensinaste que todos nós temos um podre que afectará os outros. Nunca me incumbiste de ser a menina perfeita. Tentaste mostrar o que não eras, e cagaste para o que acharam de ti. Foste mãe, mulher e amiga. E cada vez mais tenho a certeza que te estás a tornar mais amiga e mulher do que mãe. O que agradeço imenso. Mãe terás sempre as proporções certas, mulher que amamentou, educou e deu tecto. Agora amiga do peito e mulher, que me dá independência e ensina a andar na sociedade. Uma mãe amiga, aquilo que sempre quis, sempre esteve aqui, à minha frente. Tu és o presente que fica escondido debaixo da árvore, o ultimo, o pequeno, o que toda a gente esquece. Mas o que sabe melhor.
Do fundo do coração, e uma coisa que nunca te disse, eu amo-te. de verdade.
Sei que não foi das melhores cartas, nem com as palavras certas, mas foi a mais sincera, por muito que daqui a uns tempos pense o contrário, isto é verdade.

Com amor, a tua Nené.

14 de Abril.
Pai.
Fica-me entalada a palavra. Nunca sei o que te dizer, porque não tenho o que dizer nem quero.
Nunca foste pai, pelo menos para mim, e isso nunca te perdoou. Não me venham dizer que erros toda a gente comete e que te tenho que perdoar, NÃO. Isto é imperdoável. Nunca me fizeram a cabeça contra ti, a sério que não, aliás tu eras o meu herói. Eras o homem da minha vida. E erraste uma e outra vez. Por ridículo que parecesse tu esqueceste-te da minha existência, e meu caro, eu fiz questão de fazer o mesmo. Chamo-te pai porque nunca me ensinaram a chamar-te outro nome. Mas não o sinto, lamento (se é que há algo a lamentar). Se há coisa que nos una, é o sangue, somente. E quero que saibas uma coisa, eu tenho saudades, não tuas ou do papá maravilhoso que me dizem seres, tenho saudades do pai que nunca tive, do pai que todos, ou quase todos, os outros meninos e meninas têm. O pai que pega na caçadeira quando houve falar em namorados, o pai que diz que sou a menina dele, o pai que chora quando me casar e me leva ao altar. Tenho saudades do pai que nunca foste. Mas obrigado, sim obrigado, sem ti não seria o que sou hoje, formaste-me em frieza com algumas pessoas, e mostraste-me que nem todos são iguais. Como? Errando e fugindo. Foste o único, a mãe errou e permaneceu.
Pai, até um dia, possivelmente será um dia triste.
Sem qualquer tipo de sentimento eufórico, Maria.

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